Son Pra Bahia  escrito em quinta 18 outubro 2007 23:20

Vim-me para a Bahiaa

amostrar meu son cubano

E fiquei impressionado

Pelo que aqui existia. 

A dança, a melodia

de um querido povo irmão

que me mostrava sua mão

de música e poesia.

 Acarajé no tabuleiro

Vatapá no papelzinho.

O aipim no cafezinho

E tudo ao som do pandeiro.

 Até a quinta sinfonia

Já me soava estranha

Pois ao descobrir as manhas

E as riquezas da Bahia

Já nada porém existiade ruim

Na minha cidade estranha. 

Andei e andei decidido

Para assim seguir olhando

A capoeira dançando

berimbau no meu ouvido. 

E os orixás que me falam

Nos cultos do Candomblé

Que Umbanda veio depois

E as brigas que ralaram. 

Mas aqui não acaba o tranco

Um detalhe importantíssimo

é o esbelto e belíssimo

Itapoá vermelho e branco. 

E das festas nem se falam

Elas existem sozinhas

Pois carnaval na cozinha

trios elétricos se instalam. 

 O baiano é preguiçoso!

Tem quem diz por aí

Mas não esquente sua cabeça,

também veio do tupi. 

Eu não sei como acabar

este son cubano inteiro

pois tanto há pra falar

do terreiro do pandeiro!

 Caetano, Bethaninha,

Gal Costa e Gilberto Gil,

Até a mesma Simonediz

que ela veio daqui. 

Dorival com seu Caymi,

e a bela prosa ardente

Olhando no sol bem quente

decifrava sua fonia

que depois de alguns anos

eram hinos da Bahia. 

Ainda falta o forró,

os bois, São João,

enfim

Que é loucura o que eu vejo

nas lavagens do Bomfim. 

Até o prefeito se instala

nesta cultura “maluca”.

Pregando os evangelhos

para alimentar muvuca.

E então todo o  mundo vota

e ele sai vencedor

Aqui o mundo está em joelhos.

Ai! Onde estás meu Sr? 

Vou fechar este romance

porque o tempo não me alcança

para botar na balança

o baiano com seus transes. 

Vim-me aqui à Bahia

a mostrar meu son cubano

mas a paixão já existia

e fiquei na contramão.

 

Luis Alberto Alonso/Versos scritos para uma monografia de Antropologia/ UFBA.2005

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Comedia do Fim  escrito em quinta 18 outubro 2007 23:11

Extraído de uma pesquisa feita da Vida e Obra de Luiz Marfuz. Incluindo a seguinte critica ao espetáculo “Comedia do Fim”. 

Já no ano 2003, sendo considerado um dos maiores e mais comprometidos homens de teatro da Bahia, Luiz Marfuz é convidado como diretor ao Núcleo do TCA e se entrega novamente aos braços de Becket. Esta vez escolhe cinco peças. “Eu não”, “Improviso em Ohio”, “Fragmentos de teatro I”, “Comedia” e “Catástrofe”, são os cinco textos que traduzidos por Cleise Mendes e tendo a sua consultoria dramatúrgica, Luiz Marfuz  monta “Comedia do Fim” e expõe as cenas reais de nossas vidas não porém menos estranhas do que Beckett costuma tratar as suas peças. Uma sorte de risco e ousadia leva ao diretor transitar no escuro onde se defronta constantemente com as verdades que os atores revelam. Não há consecução de cenas, mas saltos dramáticos, que no absurdo de Beckett prova a nossa própria existência.

    Posso me deter com humilde atenção critica sobre esta peça, porque foi o elo, como expliquei no meu prólogo, que fez que me apaixonasse pelo trabalho do “tal Marfuz”.

    Hebe Alves na sua escura não porem menos instigante boca, Frieda Gutmann com sua expressão aparentemente inacabada que dá a sensação do renascer do ator cada dia no palco, e os restantes “anjos” que flutuam na cena apresentados por Urias Lima, André Tavares, Ipojucan Dias, Marcos Machado, Luiz Pepeu e Zeca de Abreu, fazem questão de  cintilar as propostas do diretor. Elenco sensível esse! Que torna um universo tão controvertido em carne trêmula, arrepio de sentir que: “eu não” sou a pessoa que vivencia esta “catástrofe”. “Eu não” fui convidado ao “improviso...”, como espectador, de “fragmentos...” que refletem numa dura “comedia” que é a “catástrofe” da minha vida. É imperdoável quem não tenha assistido “Comedia do Fim”. Você está à beira do abismo e não sabe que em qualquer momento as pedras detidas começam a rolar e você se precipita, cai.

    A insuspeitada luz que desce até o altar da representação guiada pela mão de Irma Vidal, a inerente trilha sonora e composições de Brian Knave, que parece não existir pela sua coerência com o “debate” cênico e os demais colaboradores técnicos do espetáculo fazem muito mais conseqüente o mundo de Marfuz com o cosmos de Beckett.

    Experiência louvável Marfuz! Você desfaz o perene mito de que nosso teatro moderno, pós-moderno, ou como quer que chamem os estudiosos das artes, não assume idéias profundas ou que não faz refletir ao espectador. Você é um dentre os tantos que lutam pela criação, pela novidade, pelo risco. Obrigado por Comedia do Fim, Obrigado por tantos espetáculos que renovam o nosso teatro contemporâneo. Obrigado por trazer de volta Brecht, Beckett e tantos outros que você vai descobrir na sua longa estrada. Obrigado por não fazer concessões aos que querem monopolizar o teatro com estilos arcaicos e anacrônicos. Obrigado pela sua persistência, por estar, por ser.

 

E Ponto Final.

Luis Alberto Alonso.

   
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A Presunção do Singelo.  escrito em quinta 18 outubro 2007 22:48

 

A Presunção do Singelo. 

Bem lá, na parte anterior da platéia, quase que acima do palco do Xisto Bahia, estava eu, querendo desfrutar de uma das peças de teatro mais interessantes dos últimos tempos, O Sapato do Meu Tio.

 

“O Sapato do meu Tio” é um espetáculo que, segundo o programa de mão que repartem na entrada do teatro, fala sobre um palhaço que viaja com seu sobrinho numa carroça, ganhando dinheiro..., com fome..., mostrando a vida..., em fim..., e o sapato é um elemento sugestivo, ou mais bem, incidental, quase que um pretexto, mas não é isso do que pretendo falar.

 

Não estou interessado agora na historia que se conta, porque acho que há algo mais importante por detrás dela e é o que faz que o espectador fique prendido a um “longo” espetáculo, de quase duas horas sem ver passar o tempo. Esse algo está praticamente vinculado à singeleza da carroça, á singeleza dos elementos, á singeleza dos atores e a equipe técnica. Magistralmente interpretado por uma das figuras mais representativas do atual teatro baiano, Lucio Tranchesi, e seu parceiro Alexandre Luis Casali, não menos interessante do que o primeiro; e dirigido por João Lima, mostram essa historia, carregados de leveza e ternura, quase que uma viagem pelo leve sorriso e a paz que pressupõe a resignação da pobreza e o jeito de se ganhar a vida.

 

Há algo de sábio na construção da historia e dos personagens.O fato de se propor não articular palavra alguma, colocando-nos naquela posição do espectador que assiste um verdadeiro show de silencio orgânico, explorando um universo silencioso carregado de falas invisíveis e de partituras corporais que executam um verdadeiro concerto. Vale a pena ressaltar o trabalho corporal dos atores. Não aquele da acrobacia nem a dança, mas do que corporalmente eles nos dão nas construções dos seus personagens. As suas mascaras mostram o que essencialmente eles são nas suas vidas e narram suas historias sem muito esforço.

 

O trabalho que corresponde ao diretor é o mais difícil, ir costurando as partes da maquinaria. É a construção do andaime que suporta a bela historia e a maneira em que é contada. É a mão do diretor da orquestra que mostra a conjunção dos timbres escolhidos.

 

João Lima nos mostra então, sem muita pretensão, sem cenário altamente elaborado, sem um espetáculo de luzes nem sonoro, até sem falas, que para construir essa linda canoa que é o nosso teatro precisamos somente de sentimento e raça, e claro está, de ousados atores.   

 

Muito obrigado a essa equipe pela viagem aos sentimentos do ser humano, que em fim é o que nos interessa em nossos dias, mais que uma forma altamente elaborada ou imitadora dos modelos antigos europeus, norte-americanos, sei lá... Vamos construir um novo teatro, o nosso, aquele que não seja atacado por ser altamente besteirol ou catalogado erroneamente por algum “Nome”, de Circo Modernista. Aquele que fale de nós e para nós da maneira mais linda possível.

“O Sapato do meu Tio” diz muito desde o silencio. E mostra presunçosamente sua bela singeleza.

 

E Ponto Final.

 Luis Alberto Alonso.12 de março de 2006.

 

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