A Presunção do Singelo.
Bem lá, na parte anterior da platéia, quase que acima do palco do Xisto Bahia, estava eu, querendo desfrutar de uma das peças de teatro mais interessantes dos últimos tempos, O Sapato do Meu Tio.
“O Sapato do meu Tio” é um espetáculo que, segundo o programa de mão que repartem na entrada do teatro, fala sobre um palhaço que viaja com seu sobrinho numa carroça, ganhando dinheiro..., com fome..., mostrando a vida..., em fim..., e o sapato é um elemento sugestivo, ou mais bem, incidental, quase que um pretexto, mas não é isso do que pretendo falar.
Não estou interessado agora na historia que se conta, porque acho que há algo mais importante por detrás dela e é o que faz que o espectador fique prendido a um “longo” espetáculo, de quase duas horas sem ver passar o tempo. Esse algo está praticamente vinculado à singeleza da carroça, á singeleza dos elementos, á singeleza dos atores e a equipe técnica. Magistralmente interpretado por uma das figuras mais representativas do atual teatro baiano, Lucio Tranchesi, e seu parceiro Alexandre Luis Casali, não menos interessante do que o primeiro; e dirigido por João Lima, mostram essa historia, carregados de leveza e ternura, quase que uma viagem pelo leve sorriso e a paz que pressupõe a resignação da pobreza e o jeito de se ganhar a vida.
Há algo de sábio na construção da historia e dos personagens.O fato de se propor não articular palavra alguma, colocando-nos naquela posição do espectador que assiste um verdadeiro show de silencio orgânico, explorando um universo silencioso carregado de falas invisíveis e de partituras corporais que executam um verdadeiro concerto. Vale a pena ressaltar o trabalho corporal dos atores. Não aquele da acrobacia nem a dança, mas do que corporalmente eles nos dão nas construções dos seus personagens. As suas mascaras mostram o que essencialmente eles são nas suas vidas e narram suas historias sem muito esforço.
O trabalho que corresponde ao diretor é o mais difícil, ir costurando as partes da maquinaria. É a construção do andaime que suporta a bela historia e a maneira em que é contada. É a mão do diretor da orquestra que mostra a conjunção dos timbres escolhidos.
João Lima nos mostra então, sem muita pretensão, sem cenário altamente elaborado, sem um espetáculo de luzes nem sonoro, até sem falas, que para construir essa linda canoa que é o nosso teatro precisamos somente de sentimento e raça, e claro está, de ousados atores.
Muito obrigado a essa equipe pela viagem aos sentimentos do ser humano, que em fim é o que nos interessa em nossos dias, mais que uma forma altamente elaborada ou imitadora dos modelos antigos europeus, norte-americanos, sei lá... Vamos construir um novo teatro, o nosso, aquele que não seja atacado por ser altamente besteirol ou catalogado erroneamente por algum “Nome”, de Circo Modernista. Aquele que fale de nós e para nós da maneira mais linda possível.
“O Sapato do meu Tio” diz muito desde o silencio. E mostra presunçosamente sua bela singeleza.
E Ponto Final.
Luis Alberto Alonso.12 de março de 2006.
Gal Rocha
Qui 10 Jan 2008 21:09