Já no ano 2003, sendo considerado um dos maiores e mais comprometidos homens de teatro da Bahia, Luiz Marfuz é convidado como diretor ao Núcleo do TCA e se entrega novamente aos braços de Becket. Esta vez escolhe cinco peças. “Eu não”, “Improviso em Ohio”, “Fragmentos de teatro I”, “Comedia” e “Catástrofe”, são os cinco textos que traduzidos por Cleise Mendes e tendo a sua consultoria dramatúrgica, Luiz Marfuz monta “Comedia do Fim” e expõe as cenas reais de nossas vidas não porém menos estranhas do que Beckett costuma tratar as suas peças. Uma sorte de risco e ousadia leva ao diretor transitar no escuro onde se defronta constantemente com as verdades que os atores revelam. Não há consecução de cenas, mas saltos dramáticos, que no absurdo de Beckett prova a nossa própria existência.
Posso me deter com humilde atenção critica sobre esta peça, porque foi o elo, como expliquei no meu prólogo, que fez que me apaixonasse pelo trabalho do “tal Marfuz”.
Hebe Alves na sua escura não porem menos instigante boca, Frieda Gutmann com sua expressão aparentemente inacabada que dá a sensação do renascer do ator cada dia no palco, e os restantes “anjos” que flutuam na cena apresentados por Urias Lima, André Tavares, Ipojucan Dias, Marcos Machado, Luiz Pepeu e Zeca de Abreu, fazem questão de cintilar as propostas do diretor. Elenco sensível esse! Que torna um universo tão controvertido em carne trêmula, arrepio de sentir que: “eu não” sou a pessoa que vivencia esta “catástrofe”. “Eu não” fui convidado ao “improviso...”, como espectador, de “fragmentos...” que refletem numa dura “comedia” que é a “catástrofe” da minha vida. É imperdoável quem não tenha assistido “Comedia do Fim”. Você está à beira do abismo e não sabe que em qualquer momento as pedras detidas começam a rolar e você se precipita, cai.
A insuspeitada luz que desce até o altar da representação guiada pela mão de Irma Vidal, a inerente trilha sonora e composições de Brian Knave, que parece não existir pela sua coerência com o “debate” cênico e os demais colaboradores técnicos do espetáculo fazem muito mais conseqüente o mundo de Marfuz com o cosmos de Beckett.
Experiência louvável Marfuz! Você desfaz o perene mito de que nosso teatro moderno, pós-moderno, ou como quer que chamem os estudiosos das artes, não assume idéias profundas ou que não faz refletir ao espectador. Você é um dentre os tantos que lutam pela criação, pela novidade, pelo risco. Obrigado por Comedia do Fim, Obrigado por tantos espetáculos que renovam o nosso teatro contemporâneo. Obrigado por trazer de volta Brecht, Beckett e tantos outros que você vai descobrir na sua longa estrada. Obrigado por não fazer concessões aos que querem monopolizar o teatro com estilos arcaicos e anacrônicos. Obrigado pela sua persistência, por estar, por ser.
E Ponto Final.
Luis Alberto Alonso.